De(s)construção

Outra fuga.

Outro endereço. Cinco em menos de um ano. Como se a busca por isso que nem sei o quê pudesse se materializar em algum lugar – e não pode. Outro avião, e quantas vezes já voei, já mudei de país? A busca que só agora compreendo, a busca pelo artista. A busca pelo artista em mim. Não está em lugar nenhum, está aqui, no de-dentro, tolhido, machucado, esquecido.

Os olhos cheios de lágrimas mais uma vez numa sexta-feira à noite, ouvindo Adele cantar One and only. Um pouco de inveja da perfeição que penso existir na canção, este lugar para onde vou quando fecho os olhos e escuto a sua voz se expandir e ocupar os dois hemisférios do meu fone de ouvido.

Depois que Londres começou a sair de mim, me vi um pouco mais maduro. Estava de volta ao meu país, re-vivendo as inadaptações que havia deixado para trás, aposentadas em estantes de madeira do passado. As ruas duras de São Paulo me tormentando, aniquilando qualquer possibilidade de construção. Entrei no meu estado ‘blue’ que sempre fascina aos outros e me machuca tanto. Reli trechos de vários contos, autores, fiz anotações em cadernos A5, deixei canetas espalhadas por toda a cidade e no meu quarto antigo. E esta pura compreensão da distância entre os últimos 7 anos e o agora saltou assim na minha frente, como uma fotografia, ou duas.

Agora em Buenos Aires, it feels right. Há quatro dias cheguei e já transformei este pequeno estúdio em Palermo Viejo na minha casa. Tem a cara de um mini-loft que me inspira e me traz uma calma e uma paz que já não sentia desde Madri. Ando pelas ruas e abraço o frio dessa época do ano. Consciente de que o escritor está desacordado em algum lugar do passado, de que algum tempo será preciso para reacordá-lo. Já escrevi tantas vezes Londres, julho de 2010, – inspirado em ‘As horas’ do Michael Cunningham, como se o livro pudesse começar por si só, mas não consigo. Ainda não estou pronto?

Essa abundância de tempo é agora meu maior aliado. A organização da vida em favor da escrita, uma tarefa que de repente me pareceu possível e a fiz. A combinação de trabalhos freelance para empresas inglesas, com a desvalorização do peso argentino, que resulta em apenas 4 horas diárias de trabalho e fica a sobra de tantas outras para falhar escrevendo, e recomeçar, recomeçar, recomeçar, até que aquele romance que não quer sair de mim ganhe forma.

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