Blooog me
todos por umtempo (perdido)
quando a minha escrita dá um tempo, parece que tudo pára e deixa de existir (detesto viver assim tão dentro de mim!).
pingos
Roubaram o meu guarda-chuva, e logo vou andando sobre a rua com o meu ‘hood’. Apenas os olhos de fora, mesmo que a chuva não caia agora. Faz frio e por trás da estação de Brixton, caminho coberto de casacos e nada mais. A chuva cai agora.
Então, os gritos, as vozes altas, as peles mais escuras e os idiomas se confundindo no ar. Recinto de várias nacionalidades, o mercado daquele bairro é como qualquer refúgio de pessoas saudosas. Os seus cheiros, recheios, sabores. Eu também estou atrás de algum cheiro do meu país, por encomenda, verdade, mas ainda assim, lá estou. Então sigo à procura e quando encontro ‘necesito hablar espanol’, e já baixei o hood e a chuva já passou, e eles percebem os meus traços mais europeus e as minhas maneiras mais educadas, e continuo e me pergunto pra quê tanta educação, e sigo, e cubro o rosto de novo por causa da chuva, indecisa, e tudo isso parece um filme, como se escondido nos meus casacos, andando por baixo da chuva, entre nigeriandos, iraquianos, colombianos, portugueses e tanta gente que eu nem sei de onde vem, mas que se encontram ali, naquele mercado sem fim, comptetindo pela voz mais alta, pelo som mais límpido.
As minhas compras são todas muito rápidas, não sei pechinchar, não sei o preço de nada, a chuva cai, não falo alto porque não gosto, e cubro o meu rosto porque a chuva cai e me vou. Fora do mercado, ainda há o cheiro do asfalto molhado daquele bairro esquecido. Ainda há o cheiro do meu país nas minhas mãos, o cheiro que vai se transformar em jantar, numa reunião de dez amigos, mesmo que a chuva caia, mesmo que o meu guarda-chuva nunca mais apareça, mesmo assim.
Porque os pingos sempre hão de secar.

